Estudo em que participou o Professor José Matos da Universidade dos Açores demonstra claramente a possibilidade da transformação do soro em biogás, com vantagens económicas para as unidades fabris de menor dimensão, onde o biogás poderia ser utilizado na própria fábrica no aquecimento de água e produção de vapor, em substituição de combustíveis fósseis.
Correio dos Açores (CA): Dos estudos feitos na UAç, é possível do soro álcool que servirá como combustível. Este pode ser um negócio viável nos Açores?
José Matos (JM): Efectivamente um estudo recente, desenvolvido por uma equipa de investigadores da UAç, no âmbito do Projecto Green Islands, e no qual participei, debruçou-se sob a viabilidade da transformação do subproduto soro (o almeice) em energia (biogás ou bioetanol) e outros produtos. Este estudo demonstra claramente a possibilidade da transformação do soro em biogás, com vantagens económicas para as unidades fabris de menor dimensão, onde o biogás gerado poderia ser utilizado na própria fábrica no aquecimento de água e produção de vapor, em substituição de combustíveis fósseis.
No caso das fábricas de maior dimensão, situadas na Ilhas Terceira e São Miguel, dado o volume e regularidade do soro nelas produzido, a produção de bioetanol poderia revelar-se uma hipótese interessante do ponto de vista económico, dada a constante subida do preço do petróleo a que vimos assistindo, energia fóssil da qual dependem os actuais processos de secagem e transformação do soro líquido em soro em pó. No caso de São Miguel uma única instalação centralizada de produção de bioetanol, a ser utilizado como combustível automóvel, ou em co-geração de electricidade, em que se processasse todo o soro produzido na Ilha, deveria ser uma hipótese a ponderar - em função dos preços de venda do soro em pó e da evolução do preço do petróleo, por uma lado, e o preço de venda do bioetanol pelo outro. Poderia mesmo considerar-se a hipótese de uma reconversão das instalações de secagem existentes, em que se valorizassem ainda mais as proteínas do soro, através do seu fraccionamento e secagem, a partir de um retentato (concentrado do soro) obtido por processos de filtração por membranas, sendo que o permeato (o resto = água, lactose e sais minerais) seria usado para a produção de etanol.
Estas alternativas teriam ainda vantagens ambientais acrescidas, quer pela redução dos impactos directos, quer pela redução significativa de emissões de carbono para a atmosfera.
CA: Em que medida a produção excessiva de leite, por via da melhoria genética dos animais, pode ser rentabilizada em outros subprodutos. Ou melhor, como podemos aproveitar e dinamizar a economia?
JM: Sendo o leite um bem em si e a produção leiteira uma mais valia para a economia dos Açores - não só pelo leite mas também pela carne - não poderemos nunca vir a contornar dois factores negativos inerentes à nossa realidade de arquipélago situado no meio do Atlântico: o nosso afastamento geográfico das zonas de grande consumo e a pequena dimensão do sector - ainda mais fragmentado em 9 ilhas.
Este contexto faz com que seja economicamente menos interessante o transporte e venda do nosso leite em líquido para o Continente. Resta-nos a alternativa de o transformar em produtos mais “concentrados”, como são o leite em pó, o queijo, a manteiga, e o soro em pó, “livrando-nos” da água. Esta transformação viabiliza economicamente o transporte do “leite” para os mercados distantes e aumenta o seu tempo de conservação. Acontece que algumas destas transformações, em particular o leite em pó e o soro, são muito exigentes no consumo de energia fóssil, cada vez mais cara. Resta-nos apostar no aumento da eficiência energética dos processos de secagem, o que tem vindo a ser feito; na utilização de processos físicos de concentração e separação por filtração, energeticamente menos onerosos e dos quais podem resultar alguns produtos muito interessantes, como são os concentrados proteicos, ou proteínas individualizadas, altamente valorizados em alguns mercados, nomeadamente o farmacêutico ou o nutracêutico; apostando no desenvolvimento e produção de novas variedades de queijo, passíveis de serem mais remunerados pelo Mercado; apostando mais no marketing.
CA: Qual é a sustentabilidade da produção leiteira nos Açores?
JM: No contexto actual em que, por uma lado, assistimos ao aumento da procura dos alimentos a nível mundial e consequentemente dos seus preços, mas também, por outro lado, à subida dos preços das matérias primas (cereais para alimentação animal, adubos e combustíveis), há que cuidar cada vez mais da sustentabilidade dos nossos processos de produção.
Tenho vindo a defender junto da lavoura açoriana, a necessidade de esta apostar num modelo mais sustentável da produção de leite, baseada principalmente na erva das nossas pastagens, em detrimento de uma produção de leite feita com concentrados, necessariamente importados, e cujo preço não controlamos. Repito neste contexto o que noutras alturas tive a oportunidade de afirmar:
“Nos sistemas de produção de leite em pastoreio o lucro máximo é conseguido levando em conta o binómio produção por animal/produção por hectare de pastagem. A lógica produtivista dos sistemas intensivos, em que se procura o máximo de produção individual como forma de diluir os custos fixos, nomeadamente das instalações, não deve ser observada no caso das explorações que exploram a erva em pastoreio directo, pois aí o lucro máximo é conseguido optimizando-se o encabeçamento, mesmo com algum prejuízo das produções individuais.
CA: Como se alcança?
JM: A sustentabilidade só poderá ser alcançada pela limitação no uso dos recursos não renováveis e a valorização dos produtos gerados em processos que contribuem para o equilíbrio ambiental, o que implicará ajustes ao actual sistema de produção, privilegiando-se práticas que combinam qualidades essenciais para a sustentabilidade, como sejam o baixo consumo de energia fóssil – menor consumo de adubos, valorizando-se a fixação simbiótica de azoto; menor consumo de cereais importados, valorizando-se a produtividade da pastagem, através de práticas agrícolas mais adequadas, selecção de cultivares de forrageiras mais eficientes na captação da energia solar; e uso de animais melhor adaptados ao pastoreio e à produção de sólidos do leite (Por ex. Jersey, Normanda, SRB, ou cruzamentos).
CA: Quais os grandes desafios que se colocam hoje à agro-pecuária?
JM: Os grandes desafios da pecuária açoriana passam em grande parte pelo melhoramento qualitativo dos sistemas já praticados, maximizando-se a utilização dos recursos locais, o que não significa atingir necessariamente uma maior produtividade biológica, mas, produzir em respeito pelas limitações do meio ambiente e das condições estruturais, culturais e sociais existentes - sustentabilidade. Produzir bem, com qualidade, transformando-se localmente os produtos da agricultura; exportando-se produtos de maior valor acrescentado; privilegiando-se os procedimentos biológicos, em detrimento de tecnologias esbanjadoras em energia fóssil, que a Região não possui, enfim, uma Produção Natural. Vender melhor, melhor distribuindo o que se produz, reequacionando-se o custo dos transportes e a comercialização do produto acabado com recurso a técnicas de “marketing”, mas, fidelizando-se o consumidor ao produto “Produzido nos Açores” através de uma imagem que corresponda à verdade, de elevada qualidade e com selo de garantia de origem.
Sistemas integrados de produção de leite, “grass fed”, ou leite da ervinha verde dos Açores, permitiriam uma evolução por etapas, no sentido de uma produção mais sustentável, com produção de um leite mais rico em sólidos, com menos água, com menor impacte ambiental, com custos de produção mais baixos, sem que as margens brutas sejam afectadas. O segredo estará em produzir bem, diminuindo os imputes e maximizando os outputs, à custa dos recursos próprios – da erva. Um leite mais competitivo.”
CA: Há algum tempo atrás disse que o abandono da actividade agrícola não tem apenas impacto neste sector, mas também noutras áreas, como o turismo. Acha que é mais do que chegada a hora de regressarmos à terra se quisermos sobreviver em tempos de austeridade?
JM: Segundo o multimilionário Warren Buffet há 5 boas razões para investir na agricultura: “as reservas mundiais de cereais estão a atingir o nível mais baixo em 40 anos; o consumo de bens agrícolas, particularmente os cereais, está em franca ascensão; a quantidade de terra arável por pessoa, a nível global, tem diminuído drasticamente; o uso de cereais para a produção de biocombustíveis aumentou a pressão sobre os preços; a menor disponibilidade de água irá reduzir a produtividade agrícola”. Assim; à primeira vista, a aposta na profissão de agricultor é uma aposta com futuro, ainda mais que o nosso país é deficitário em bens alimentares e necessita de aumentar o nível das suas exportações também neste sector.
Exorto os jovens que sintam o apelo da terra a fazerem esta aposta, investindo também na sua formação profissional, condição essencial de sucesso.
CA: É também o autor da frase: “Os valores da açorianidade estão profundamente ligados à ruralidade”, mas sem gente ligada ao trabalho na terra como é se mantém esta tradição que mais do que isso é como nos sustentamos sem recurso ao exterior?
JM: A forte ruralidade da RAA está bem patente na identidade cultural do povo açoriano, na ocupação do território e nas paisagens características das ilhas. As grandes referências da cultura açoriana, como o são as festas do Divino Espírito Santo, o Carnaval da Terceira, o folclore, o tourada à corda, são tradições cuja matriz são profundamente rurais e que terão a perder com a desertificação do mundo rural das nossas ilhas. Há também que entender que a actividade agrícola é mais do que simplesmente um sector económico, percebendo-se a riqueza do conceito da sua multifuncionalidade e a importância que ela tem para potenciar o desenvolvimento de outros sectores da actividade económica: turismo, preservação da paisagem, segurança alimentar, etc. Os fenómenos de desertificação resultantes do envelhecimento demográfico, em particular de algumas das ilhas, acarretarão consigo mais do que a perca de produção de uns milhares de litros de leite, algumas toneladas de carne, ou pipas de vinho, por isso há que contrariar esse processo através das políticas que conduzam à fixação dos jovens, potencializem a mobilidade interna das populações e mesmo a imigração qualificada.
CA: Acha que é na diferenciação que nos vamos conseguir impor? Que produtos podíamos aproveitar como mais-valia e que não estamos a fazer?
JM: Como somos muito pequenos, no contexto de um mundo globalizado e massificado, a diferença e a qualidade, são atributos essenciais à comercialização dos nossos produtos. Mas não basta produzir bom e bem, é também necessário saber vender. Poderíamos começar por vender ainda melhor os produtos que já produzimos, através de operações de marketing de maior qualidade, fazendo uso de técnicas modernas, explorando bem os mercados que nos ficam mais à mão: em primeiro lugar o mercado mais próximo, potenciando-se particularmente o uso dos nossos produtos na hotelaria e restauração local e uma gastronomia genuinamente açoriana; depois Lisboa, Madeira e Canárias - mercados estes também complementares à sazonabilidade da nossa produção de leite e carne.
CA: O nosso queijo ainda tem alguns problemas de entrar em mercados de controlo muito apertado, como os EUA, porque é produzido com leite cru. Que estratégia a seguir?
JM: Uma vez que a quantidade de queijo vendido nos EUA é pouco significativa e os problemas referidos dão origem a campanhas recorrentes que em nada contribuem para a boa imagem dos nossos lacticínios, o melhor será então vender esse mesmo queijo em mercados em que o “produzido com leite cru” não seja um problema!
CA: Um rótulo de identificação “marca registada” iria ajudar os nossos produtos?
JM: Os produtos com selo DOP (Denominação de Origem Protegida) ou IGP (Indicação Geográfica Protegida) acrescentam valor comercial aos alimentos, pois o consumidor relaciona facilmente estes produtos com a imagem cultural e ambiental de uma determinada região, garantia de uma certa forma de fazer, mais natural, mais genuína! O leite para consumo produzido nos Açores e nossa manteiga já há muito deveriam ser portadores de um selo IGP. Para além disso os produtos da nossa agricultura e da nossa pesca, deveriam todos ser comercializados com a identificação de “Produzido nos Açores”, defendendo-se que este rótulo esteja ligado a uma imagem de qualidade, de mais natural, de segurança, de mais nutritivo.
FONTE: ANIL